sexta-feira, 9 de março de 2012

Capítulo 3 - On the Road


3

Foi uma viagem ordinária, com bebês chorões e sol escaldante, e caipiras que embarcavam cada vez que o ônibus parava em tudo quanto é cidade da Pensilvânia, até que atingimos as planícies de Ohio, e então realmente as rodas rodaram, direto até Ashtabula e rasgando Indiana noite adentro. Minha chegada a Chicago ocorreu pouco depois da aurora, arranjei um quarto na ACM e caí na cama com uns poucos trocados no bolso. Curti Chi depois de um reconfortante dia de sono.
O vento que vinha do lago Michigan, bop-jazz no Loop, longas caminhadas ao redor de South Halsted e North Clark e, na madrugada silenciosa, uma longa jornada pela selva de pedra, quando uma radiopatrulha me seguiu como suspeito. Nessa época, 1947, o bop enlouquecia a América. Os rapazes no Loop seguiam soprando, mas com um ar melancólico, porque o bop atravessava um momento indeciso entre o período ornitológico de Charlie Parker e a nova era, que começou com Miles Davis. E, enquanto eu ouvia aquele som noturno que o bop representava para todos nós, pensei nos meus amigos espalhados de um canto a outro da nação, e em como todos eles viviam frenéticos e velozes, dentro dos limites de um único e imenso quintal. Na tarde seguinte, segui para o oeste pela primeira vez em minha vida. Era um lindo dia ensolarado, perfeito para cair na estrada. Fugindo da impossível complexidade do tráfego de Chicago, peguei um ônibus até Joliet, Illinois, tangenciei a penitenciária de Joliet, escapei em direção à periferia da cidade depois de uma caminhada por suas minúsculas ruas frondosas, e deixei que meu dedo apontasse o caminho. De ônibus — todo o
percurso de Nova York até Joliet, e eu tinha gasto mais da metade de minha grana.
A primeira carona foi num caminhão carregado de dinamite, com bandeira vermelha e tudo, uns cinqüenta quilômetros pela esverdeada amplitude do Illinois, sendo que o caminhoneiro apontou o lugar onde a Rota 6, onde a gente estava, se juntava com a Rota 66, antes de ambas mergulharem nas inacreditáveis distâncias do oeste. Por volta das três da tarde, depois de uma torta de maçã e um sorvete num bar de beira de estrada, uma mulher parou seu pequeno cupê para mim. Corri atrás do carro num arrepio de intensa satisfação. Mas era apenas uma mulher de meia-idade, que até podia ser minha mãe, e tudo o que queria era alguém para ajudá-la a dirigir até Iowa. Iowa! Que jóia! Não ficava muito longe de Denver, e assim que eu chegasse a Denver poderia descansar. Ela dirigiu as primeiras e poucas horas, chegando a parar sei lá onde, para visitarmos uma velha igreja qualquer como se fôssemos turistas, e só depois peguei a direção; mesmo não sendo um grande motorista, dirigi numa ótima, cruzando o restante do Illinois até Davenport, Iowa, via Rock Island. E foi então que vislumbrei pela primeira vez meu querido rio Mississipi, raso sob a bruma do verão, quase seco, exalando o odor de sua fertilidade, que cheira como o próprio corpo vivo da América, lavada por ele. Rock Island, trilhos de trem, barracos, o insignificante centro da cidade e, do outro lado da ponte, Davenport, o mesmo clima, o mesmo cheiro de serragem sob o sol abafado do meio-oeste. E então a mulher teve que seguir por- outra estrada até sua cidade natal em Iowa, e eu saltei fora.
O sol se punha, eu andava, tinha bebido umas cervejas geladas, ia em direção aos arrabaldes da cidade, foi uma longa caminhada. Os homens voltavam do trabalho para casa, usavam chapéus de ferroviários, chapéus de beisebol, todos os tipos de chapéus, como depois do expediente em qualquer cidade de qualquer lugar. Um deles me deu uma carona até o topo de uma colina, e me deixou numa vasta encruzilhada, isolada na beira da pradaria. Que lugar esplêndido! Os únicos carros que passavam eram carros de fazendeiros, eles me
lançavam olhares desconfiados e zuniam no descampado, o gado ia para casa. Nem ao menos um caminhão. Somente uns poucos carros, sibilantes. Um garotão passou com sua caranga envenenada e o cachecol esvoaçante. O sol se pôs completamente, e eu estava lá, de pé, envolto pelas sombras púrpura. Fiquei realmente com medo. Não havia uma única luz nos campos de Iowa, em um minuto eu não seria visto por mais ninguém. Felizmente, um sujeito que voltava a Davenport me deu uma carona até o centro da cidade. Só que ali estava eu, de volta ao ponto de partida.
Fui sentar na rodoviária e refletir sobre minha situação. Devorei outra torta de maçã e mais um sorvete — na verdade, esses foram praticamente os únicos alimentos que comi em minha viagem através do país, embora sejam deliciosos, além de nutritivos, é claro. Decidi arriscar. Peguei um ônibus no centro de Davenport, depois de passar meia hora paquerando a garçonete no bar da rodoviária, e retornei aos limites da cidade, mas dessa vez para a proximidade dos postos de gasolina. Ali, os grandes caminhões roncavam, vrumm, e em dois
minutos um deles parou aos solavancos para me apanhar. Corri, exultante. E que caminhoneiro, homem! Um motorista enorme, maciço e robusto, com olhos esbugalhados e uma voz rouca e arranhada, daqueles que batem a porta com violência e pisam fundo, fazendo a máquina rodar sem dar a menor bola para mim. E, assim, pude descansar meu espírito fatigado, já que um dos maiores tormentos de se viajar de carona é ter de falar com incontáveis pessoas, distraí-las até que elas percebam que não cometeram um erro ao apanhar você, e isso resulta num esforço enorme, se o percurso é longo e você não está a fim de dormir em hotéis. O cara simplesmente berrava, mais alto do que o ronco do motor, e tudo o que eu tinha a fazer era gritar uma resposta, e assim relaxamos. Ele deixou aquele monstrengo rolar até Iowa City sem esforço aparente, sempre berrando histórias engraçadíssimas, contando como burlava a lei em cada cidade que possuía limites de velocidade estritos, repetindo milhares de vezes: “Esses porcos de merda nunca conseguiram me estrepar”. Quando rodávamos pelas proximidades de Iowa City, ele ligou a sinaleira e diminuiu a velocidade, para que eu saltasse, o que fiz, carregando minha mochila; ao perceber o sinal, o outro caminhão parou para me recolher, e assim, num piscar de olhos, lá estava eu mais uma vez numa espaçosa cabina elevada, preparadíssimo para avançar centenas de quilômetros noite adentro, e sentindo-me maravilhosamente bem. Esse novo caminhoneiro era tão louco quanto o primeiro e gritava tanto quanto aquele, e tudo o que eu tinha a fazer era me aconchegar e deixar rolar. Agora, sim, podia ver a silhueta de Denver agigantando-se à minha frente, como uma Terra Prometida, lá fora entre as estrelas, através das pradarias do Iowa e pelas planícies do Nebraska, e tive uma visão grandiosa de San Francisco mais adiante, duas noturnas pedras preciosas. Ele fincou o pé na tábua, contando histórias por algumas horas, até que numa cidade do Iowa, onde anos mais tarde Dean e eu fomos detidos sob suspeita de estarmos dirigindo um Cadillac roubado, ele dormiu no assento por algumas horas. E eu também dormi, mas antes dei um pequeno passeio ao longo de solitárias paredes de tijolos, iluminadas por uma única lâmpada, admirando a pradaria que brotava ao final de cada estreita esquina, e o cheiro do milho misturado ao orvalho da noite. Ele acordou num sobressalto. Lá fomos nós e, uma hora depois, entre o milharal esverdeado, surgiu à nossa frente a névoa cinzenta que recobre Des Moines. Ali ele quis tomar seu café da manhã e diminuir o ritmo, então decidi entrar direto em Des Moines, que ficava a uns seis quilômetros; peguei uma carona com dois caras da universidade local, e foi bastante estranho sentar numa caranga confortável e nova em folha e ouvi-los falar sobre seus exames, enquanto deslizávamos suavemente para dentro da cidade. Decidi dormir o dia
inteiro. Fui à ACM batalhar um quarto, não havia nenhum, por instinto perambulei até os trilhos de trem — e há milhões em Des Moines; — acabei despencando numa velha pensão sombria e vulgar, junto à oficina das locomotivas, e passei o dia inteiro dormindo numa grande cama branca, dura e limpa, com rachaduras sujas cavadas na parede, bem ao lado do meu travesseiro, e surradas cortinas amarelas que emolduravam a cinzenta paisagem ferroviária. Acordei com o sol rubro do fim de tarde; foi um dos momentos mais impressionantes de minha vida, o mais bizarro, pois simplesmente já não sabia mais quem era — estava a milhares de quilômetros de minha casa, temeroso e desgastado pela viagem, num quarto de hotel barato nunca antes avistado, ouvindo o silvo das locomotivas e o ranger das velhas madeiras do hotel, e passos anônimos que ressoavam no andar de cima, e todos aqueles sons melancólicos, e por quinze misteriosos segundos realmente já não sabia quem era. Não me apavorei; simplesmente eu me sentia como se fosse outra pessoa, um estranho a mim mesmo, e toda a minha existência fora apenas uma vida mal-assombrada, a vida vazia de um fantasma.  Eu estava no coração da América, meio caminho andado entre o leste da minha mocidade e o oeste de meus sonhos futuristas, e é provável que tenha sido exatamente por isso que tudo se passou assim, naquele entardecer dourado e insólito.
Mas já era tempo de cortar as lamentações e cair fora, então apanhei minha mochila, disse adeus ao velho recepcionista sentado ao. lado de sua escarradeira, e fui comer. Devorei outra torta de maçã com sorvete — estavam ficando cada vez melhores à medida que eu avançava dentro de Iowa, a torta crescia e o sorvete ficava ainda mais saboroso. Naquela tarde em Des Moines, para onde quer que olhasse, via inúmeros bandos de garotas lindíssimas — elas voltavam para suas casas depois das aulas —, agora eu não tinha tempo para pensamentos desse tipo, mas jurei que cairia na farra assim que chegasse a Denver. Denver! Carlo Marx já estava lá, Dean, também; e, claro, Chad King e Tim Gray, já que era a cidade natal deles; e também Marylou, e eu tinha ouvido falar de uma turma muito louca que incluía Ray Rawlins e Babe Rawlins, sua linda irmã loira; e as irmãs Bettencourt, duas garçonetes que Dean conhecia; e até Roland Major, um antigo colega com o qual eu me correspondia nos tempos da universidade, andava por lá também. Transpirando alegria antecipada, aguardava ansioso pelo meu reencontro com eles. Por isso, passei direto por aquelas lindas gatinhas: as garotas mais gostosas do mundo moram em Des Moines. Um cara com uma espécie de caixa de ferramentas sobre rodas, um caminhão recheado com todos os tipos imagináveis de ferramentas, que ele dirigia de pé como um leiteiro moderno, deu-me uma carona até o topo de uma colina, onde peguei imediatamente outra carona de um fazendeiro e seu filho, que iam para Adel, em Iowa. Nessa cidade, sob um olmo enorme nas proximidades de um posto de gasolina, fiz amizade com outro caroneiro, um nova-yorkino típico, irlandês que havia passado a maior parte de sua vida profissional dirigindo um caminhão dos Correios e Telégrafos, e que agora partia para uma vida nova ao lado de uma garota de Denver. Acho que ele estava fugindo de alguma coisa em Nova York, da lei provavelmente. Ele era o beberrão típico, com um narigão vermelho, moço, uns trinta anos, e normalmente logo teria me enchido o saco, caso eu já não estivesse preparado para qualquer espécie de amizade humana. Ele vestia um suéter surrado e calças largas, e não possuía nada que lembrasse uma mochila — apenas uma pasta de dentes e alguns lenços. Ele disse que a gente devia pedir carona juntos. Eu teria dito não, já que ele parecia péssima companhia para a estrada. Mas como estávamos ali encalhados, pegamos carona com um homem taciturno até Stuart, em Iowa, cidade na qual realmente atolamos. Paramos em frente ao guichê da estação ferroviária, esperando pelo tráfego que ia para o oeste até o sol se pôr, umas boas cinco horas, matando tempo, primeiro falando sobre nós mesmos, em seguida ele me contou umas sacanagens, depois ficamos apenas chutando seixos e dizendo todo tipo de bobagem. Aquilo nos encheu o saco. Peguei umas moedas e comprei cerveja; fomos a um velho saloon em Stuart e bebemos algumas. Lá, ele ficou tão bêbado quanto costumava ficar em sua caminhada noturna pela Ninth Avenue, voltando para casa, e berrou alegremente ao meu ouvido os sonhos sórdidos de sua vida. Até que gostei dele; não porque fosse um cara legal, como provaria mais tarde, mas porque se entusiasmava com tudo. Retornamos à estrada em meio à escuridão, e logicamente poucos carros passaram, e nenhum parou. Isso se prolongou até as três da manhã. Gastamos um tempo enorme tentando dormir num banco duro e frio da estação ferroviária, mas o telégrafo tilintou loucamente a noite inteira, os enormes trens de carga fizeram ruídos estrondosos, e a gente não conseguiu relaxar. O pior é que nem ao menos sabíamos saltar para dentro dos trens em movimento, nunca havíamos feito isso antes, também não imaginávamos se eles estavam indo para o leste ou para o oeste, nem tínhamos como descobrir, e tampouco entramos num acordo se seria melhor saltar num vagão aberto, num fechado ou num vagão refrigerado; portanto, descartamos esse plano. E assim, quando o ônibus para Omaha passou, pouco antes do amanhecer, entramos nele e nos misturamos aos passageiros adormecidos. Paguei minha passagem, e a dele também. Chamava-se Eddie. De alguma forma, ele me fazia lembrar o sujeito casado com minha prima do Bronx.
Acho que foi por isso que me liguei nele. Afinal, era como se eu estivesse junto com um velho amigo, um cara simpático e sorridente, com o qual eu podia ficar dizendo bobagens horas a fio. Chegamos em Council Bluffs ao amanhecer; consegui abrir um olho. Durante o inverno inteiro, eu estivera lendo sobre as grandes festas que detinham os vagões, ali, antes de eles partirem em direção às trilhas do Oregon e de Santa Fé, isso no tempo dos pioneiros, é claro; porque agora a cidade não passava de um subúrbio elegante, com chalés engraçadinhos construídos em duas ou três variações do mesmo estilo, alinhados sob o céu pálido de um amanhecer opaco. E então Omaha, e aí, meu Deus, vi o primeiro cowboy de minha vida, caminhando ao longo das paredes gélidas dos armazéns frigoríficos que vendem carne por atacado, com um chapéu descomunal e botas texanas; se não fosse pelo traje, pareceria um típico picareta da costa leste, recostado a um muro banhado pelo amanhecer. Saltamos do ônibus e deslizamos até o topo da colina, a extensa colina formada ao longo de milênios pelo poderoso rio Missouri, junto ao qual Omaha foi construída, e logo chegamos à zona rural, já com os polegares de prontidão. Pegamos uma carona curta com um fazendeiro rico, também descomunalmente enchapelado, e ele disse que o vale do Platte era tão soberbo quanto o vale do Nilo, no Egito, e assim que ele disse isso, avistei árvores exuberantes que serpenteavam ao longo do curso sinuoso do Platte, envoltas por esplêndidos campos verde jantes, e por pouco não acabei concordando com ele. Então, quando já estávamos em pé em outra encruzilhada solitária e o céu começava a ficar nublado, outro cowboy, este com um metro e noventa de altura e com um chapéu bem mais modesto, aproximou-se, perguntando se um de nós sabia dirigir. Claro que Eddie sabia; ele tinha carteira de motorista, e eu, não. O cowboy tinha dois carros, e desejava levá-los de volta para Montana. A mulher o aguardava em Grand Island, e ele queria alguém que dirigisse um dos carros até lá, quando então ela assumiria o volante. Daí em diante, eles iriam para o norte, e esse seria o limite de nossa carona com ele. Mas isso representava uns bons duzentos quilômetros para dentro do Nebraska e, lógico, embarcamos nessa. Eddie ia sozinho, o cowboy e eu o seguíamos, só que, assim que saímos dos limites da cidade, Eddie tascou pé na tábua, cento e quarenta quilômetros por hora, com um desembaraço fantástico.
— Puta merda! O que esse cara está fazendo? — gritou o cowboy, e saiu atrás dele, voando. Legal, de repente era como se fosse uma corrida. Cheguei a pensar que Eddie estava pensando em se mandar com o carro — e, pelo que sei dele, era exatamente isso o que ele pretendia fazer. Mas o cowboy colou nele e tocou a mão na buzina. Eddie diminuiu um pouco. O cowboy buzinou novamente, para que ele parasse no acostamento. — Porra, garoto, desse jeito você vai gastar meus pneus. Será que não dá pra ir com mais calma?
— É sério mesmo? Eu estava realmente a cento e quarenta? — disse Eddie com uma cara de santo. — Nem percebi, essa estrada é tão suave... — Trate de dirigir mais devagar, senão a gente não chega inteiro em Grand Island.
— Pode crer. — E nós reiniciamos a jornada. Eddie se acalmou, e deve ter ficado até um pouco sonolento. E assim, rodamos cerca de duzentos quilômetros através do Nebraska, sempre acompanhando o Platte tortuoso, com seus exuberantes campos gramados. Durante a Depressão — disse-me o cowboy —, eu costumava saltar nos trens de carga pelo menos uma vez por mês. Naquele tempo, havia centenas de homens nos vagões abertos, e até mesmo em cima dos vagões de carga, e não eram apenas os vagabundos, havia gente de todo tipo — estavam todos desempregados —, iam de um lugar pro outro, a maioria sem rumo definido. Era assim por todo o oeste. Naquela época, os guarda-freios não nos incomodavam jamais. Não sei como é hoje. Nebraska, que lugarzinho inútil! Na metade dos anos 30, isso aqui não passava de uma enorme nuvem de poeira, que se estendia tão longe quanto os olhos pudessem ver. Respirar era impossível. O chão era preto. Eu estava aqui, naqueles dias mesquinhos. Por mim, poderiam devolver Nebraska para os índios. Odeio esse lugar mais do que qualquer outra região do mundo. Atualmente, moro em Missoula. É o paraíso terrestre, vá lá e confira. — Quando ele cansou de falar, adormeci. Para dizer a verdade, o papo dele até que era interessante.
Paramos na estrada para comer. O cowboy foi consertar um estepe, e Eddie e eu nos sentamos numa espécie de bar-restaurante caseiro. Ouvi uma gargalhada espalhafatosa, a maior gargalhada do mundo, e aí entrou um habitante típico do Nebraska, um fazendeiro vestido de couro cru da cabeça aos pés, acompanhado por seu bando de rapazes; a zoeira que eles faziam ecoava pelas planícies, recobrindo inteiramente aquele mundo descolorido onde eles viviam. Quando ele ria, todo mundo ria junto. Ele parecia não ter a menor preocupação na vida, e tratava todo mundo com o maior respeito. Disse para mim mesmo: uau, escute só a risada desse cara! O oeste é isso aí, e eis-me aqui em pleno oeste. Seus passos retumbavam dentro do bar enquanto ele chamava por Maw; ela fazia a torta de cereja mais deliciosa do Nebraska, e é claro que eu já havia devorado uma, depois de cobri-la com uma montanha de sorvete. — Maw, arranje-me o que comer antes que eu comece a devorar a mim mesmo cru, ou cometa alguma besteira semelhante. — Ele se atirou num banco, às gargalhadas. — E cubra tudo com feijão, ah, ah, ah! — Era o verdadeiro espírito do oeste, sentado justamente ali a meu lado. Oh, realmente eu queria conhecer sua vida nua e crua, descobrir o que ele estiver a fazendo todos aqueles anos, além de gozar e gargalhar. Uau, que energia, disse com meus botões, e aí o cowboy voltou e nos mandamos para.Grand Island. Chegamos lá num piscar de olhos. Ele encontrou sua mulher, e os dois se mandaram para seu destino, aonde quer que ele fosse, e Eddie e eu retornamos à estrada. Pegamos uma carona com dois garotões — uns vaqueiros, caipiras adolescentes que dirigiam um calhambeque todo remendado —, e eles nos deixaram mais adiante em algum lugar, sob uma garoa fina. Aí, um velho que não disse palavra — e só Deus sabe por que ele nos apanhou — nos levou até Shelton. Então Eddie prostrou-se na estrada, sem ânimo, em frente a um grupo de pequenos índios omahas, mirrados, com os olhos fixos e vazios, acocorados, sem ter para onde ir ou o que fazer. Os trilhos do trem passavam do outro lado da estrada, junto a uma caixa-d’água onde se lia: SHELTON. — Puta que o pariu — disse Eddie, surpreendido. — Já estive nessa merda de cidade antes. Foi há um tempão atrás, durante a guerra, era de noite, tarde da noite, todos dormiam; saí do trem para fumar, e ali estávamos nós em meio a nada, na mais completa escuridão, e eu olhei para o alto e vi esse nome SHELTON escrito nesta caixa d’água. Íamos para o Pacífico, todo mundo roncava, aquele bando de bundas moles; nós paramos apenas por alguns instantes, para abastecer ou algo assim, e logo seguimos adiante. Puta merda, e agora aqui estou eu em Shelton outra vez! Odeio esse lugar desde sempre! — E ali estávamos nós, encalhados em Shelton.
Por algum motivo, como em Davenport, em Iowa, todos os carros que passavam eram carros de fazendeiros ou, de vez em quando, um carro de turistas, o que é ainda pior, pois neles viajam velhos que dirigem enquanto suas esposas consultam mapas e apontam pontos turísticos, ou então, recostadas em bancos reclináveis, olham para tudo com aquela cara de desconfiança. A garoa aumentou, e Eddie ficou gelado; ele vestia pouquíssima roupa.
Peguei uma camisa de flanela xadrez no meu saco de viagem, e ele a vestiu. Sentiu-se um pouco melhor. Eu já estava resfriado. Comprei umas pastilhas para a garganta numa minúscula loja indígena. Fui a um ínfimo posto de correio, de dois metros por quatro, e enviei um postal barato para minha tia. Retornamos à estrada opaca. Ali, bem à nossa frente, na caixa-d’água, estava escrito: SHELTON.
O ônibus para Rock Island passou zunindo por nós. Pudemos ver as caras dos passageiros do Pullman, num relance súbito. O trem assobiou pelas planícies, seguindo também na direção dos nossos desejos. Então, começou a chover mais forte.
Um sujeito alto e esguio, com um chapéu de porte médio, parou seu carro no lado oposto da estrada e caminhou em nossa direção; parecia o xerife. Silenciosamente, preparamos nossas desculpas. Ele se aproximou vagarosamente. — Ei, rapazes, vocês estão indo para algum lugar específico, ou estão apenas curtindo a estrada? — Não entendemos bem a pergunta. Era digna de se pensar em casa.
— Por quê?
— O negócio é o seguinte: tenho um pequeno parque de diversões a poucos quilômetros daqui e estou precisando de garotos que estejam a fim de trabalhar e ganhar um dinheiro fácil. Temos uma concessão para a roleta, e outra para o jogo de argolas —, sabe como é, aquelas que você atira e ganha o objeto no qual ela se encaixa. Vocês estão dispostos a trabalhar para mim? Pago trinta por cento de cada bolada...
— Mais cama e comida?
— Cama, sim, comida, não. Vocês terão que comer na cidade. Vamos viajar um pouco por aí. — Refletimos por uns instantes. Estávamos um pouco intimidados, não sabíamos bem o que responder, mas, para dizer a verdade, eu não estava nem um pouco interessado naquela história de parque de diversões. Estava louco para chegar a Denver e encontrar a rapaziada. Disse: — Não sei, cara. Estou a fim de cair fora o mais rápido possível, e acho que não vai dar tempo. — Eddie repetiu praticamente a mesma coisa, o velho gesticulou displicentemente, perambulou de volta para seu carro e se manejou. E foi isso. Nós rimos por uns instantes, e ficamos imaginando como seria aquela transação. Tive visões de uma noite sombria, e poeirenta, esparramada sobre, as planícies, e as caras das famílias do Nebraska desfilando à minha frente, com crianças rosadas que olham para tudo com espanto e admiração, e eu sei que me sentiria o maior calhorda do mundo se tivesse que lográ-los naqueles malditos caça-níqueis. Rodas-gigantes que giram na escuridão da planície e, pelo amor de Deus, a música entristecida dos carrosséis que ecoa pelas montanhas, e eu ansioso para chegar logo a meu destino, tendo de dormir numa cama de aniagem em algum vagão dourado. Eddie acabou se revelando um companheiro um tanto velhaco para a estrada. Uma geringonça antiga, engraçada, cruzou por nós.. Era dirigida por um velho, e fora fabricada com uma espécie de metal que lembrava o alumínio, acho; mais parecia uma caixa metálica sobre rodas – pretendia ser um trailer, sem dúvida; mas um trailer estranho e maluco, feito em casa no Nebraska. Ia tão devagar que parou. Corremos até lá a mil por hora; o velho disse que só podia levar um de nós. Sem uma palavra sequer, Eddie se jogou para dentro da caixa metálica e sumiu lentamente de vista — e, ainda por cima, com minha camisa de flanela xadrez. Porra, que dia de sorte, joguei um beijo de despedida para a camisa, de qualquer maneira ela tinha apenas um valor sentimental. Voltei à esperar em Shelton, aquela cidade de merda, por um longo, longo tempo, muitas horas mesmo, e temi que a noite chegasse repentinamente, mas, na verdade, apesar de já estar um pouco escuro, ainda era cedo. Denver, Denver, como, quando, de que maneira eu finalmente chegaria em Denver? Já estava quase desistindo de ficar na estrada, e planejava uma chegada ao café mais próximo, quando um carro quase novo, dirigido por um rapagão, parou para mim. Corri como um louco.
— Para onde você está indo?
— Para Denver.
— Bem, posso levá-lo por duzentos quilômetros.
— Grande, cara, grande! Você acaba de me salvar a vida.
— Eu também costumava pegar carona, por isso sempre dou uma força pra rapaziada, quando posso.
— Eu faria o mesmo, se tivesse um carro.
E nós continuamos conversando, ele me falou sobre sua vida, que não era das mais interessantes, e eu adormeci um pouco, só acordando nos arredores de Gothenburg, onde ele me deixou.




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